PM mata dois pedreiros a tiros e provoca onda de protestos em São Gonçalo, na Região Metropolitana do RJ

Moradores realizaram protestos que fecharam a BR-101 e a RJ-104 após as mortes de Marcelo da Cruz Silva e Edivan Felipe de Assis/Reprodução

Vítimas portavam marmitas e utensílios de trabalho quando foram baleadas; estradas federais e estaduais sofreram bloqueios, e ônibus foram recolhidos. PMs são afastados
Numa ação desastrosa da polícia, dois trabalhadores da construção civil Marcelo da Cruz Silva, de 41 anos, e Edivan Felipe de Assis, 46, foram mortos por disparos da Polícia Militar durante uma operação na manhã desta quarta-feira (27), no Jardim Catarina, Região Metropolitana do Rio. Testemunhas afirmaram que ambos portavam refeições e materiais de serviço no momento do crime.
Em protesto, moradores interditaram trechos importantes da rodovia BR-101 e da estrada estadual RJ-104, rotas liberadas posteriormente. A apuração dos fatos está sob responsabilidade da Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSG), que realizou perícia na área.
Os agentes envolvidos na morte dos pedreiros foram afastados das ruas. As armas foram recolhidas para perícia e um procedimento foi aberto para apurar o caso.
Segundo as primeiras informações, os PMs efetuaram os disparos após confundirem os equipamentos das vítimas com armas de fogo. O homicídio afetou severamente o trânsito na BR-101, onde manifestantes atravessaram e incendiaram pneus na altura do quilômetro 306. Embora a Polícia Rodoviária Federal (PRF) tenha conseguido liberar as pistas horas após o início do tumulto, novos confrontos estouraram no turno da tarde, exigindo o uso de balas de borracha para conter a multidão.
Reforço no policiamento
Para conter os distúrbios, o Batalhão de Operações Especiais (Bope), o 7º BPM e a PRF reforçaram o patrulhamento na BR-101 e nas imediações do Jardim Catarina, que também teve faixas da RJ-104 tomadas por manifestantes. O transporte público foi duramente afetado: três coletivos foram atravessados como barricadas, o que levou ao desvio de três linhas intermunicipais e à suspensão de nove itinerários municipais por ordem da PM. O serviço de ônibus só foi normalizado de forma gradual no fim do dia, sob forte esquema de monitoramento da Semove.
Câmeras corporais podem esclarecer os fatos
Em pronunciamento sobre o ocorrido, a porta-voz da Polícia Militar, tenente-coronel Cláudia Moraes, informou que a perícia técnica e as imagens das câmeras corporais dos agentes seriam fundamentais para esclarecer a distância e a visibilidade dos policiais no momento dos disparos.
Ela justificou que a entrada da tropa na comunidade visava garantir a segurança de técnicos de telefonia na remoção de torres na região. A oficial e a Polícia Civil asseguraram total transparência na apuração, embora a permanência do policiamento ocupando o bairro ainda dependesse de uma avaliação do setor operacional.
O comando do 7º BPM instaurou um procedimento apuratório interno e confirmou que a guarnição baleou os dois homens que viajavam em uma motocicleta na localidade da Ipuca. A corporação lamentou formalmente o falecimento de Marcelo e Edivan, comprometendo-se a cooperar com o inquérito.
Paralelamente, a Polícia Civil apreendeu as armas dos militares para exames de confronto balístico, colheu depoimentos das testemunhas e encaminhou os corpos ao Instituto Médico-Legal (IML). O caso também passou a ser acompanhado pela Comissão de Direitos Humanos da Alerj, que manifestou profunda indignação com os indícios de que trabalhadores foram fatalmente confundidos com criminosos.