Varredura aponta ‘fantasmas’ e gera onda de exonerações em pastas do governo do RJ

Fantasmas

Auditoria de “alta criticidade” da CGE rastreou comissionados sem registro de ponto ou login nos sistemas; exonerações feitas pelo governador em exercício Ricardo Couto geram economia milionária

Uma checagem detalhada realizada pela Controladoria Geral do Estado (CGE) descobriu que todas as 77 repartições públicas da administração do Rio de Janeiro abrigavam funcionários fantasmas em suas folhas salariais.

Os ocupantes de postos de confiança ganharam a etiqueta de “alta criticidade” depois que o batimento de informações comprovou que eles jamais utilizavam as catracas de acesso, não logavam nos computadores locais e sequer entravam no Sistema Eletrônico de Informações (SEI), plataforma mandatória para gerir a documentação do estado.

Os levantamentos indicam que quase todos os envolvidos possuíam conexões partidárias com a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), com o antigo mandato do governo ou com ex-chefes de pastas.

Perante a fraude, o governante interino, Ricardo Couto, determinou um desligamento em massa de pessoal. Desde o início das medidas, acima de 4.283 apadrinhados políticos acabaram destituídos de suas funções.

Prejuízo aos cofres públicos

O reflexo econômico dos cortes e da eliminação de repartições ociosas tende a dar um fôlego extra ao orçamento fluminense. Os setores que registraram as maiores quedas em postos de livre nomeação foram: Secretaria de Trabalho: encolhimento de 78,6%; Secretaria de Esporte e Lazer: encolhimento de 75,6%; Secretaria de Turismo: encolhimento de 73,3%; Secretaria de Cultura, Tecnologia e Inovação: encolhimento de 65,6%.

Até este momento, 60 das 77 entidades do estado finalizaram seus diagnósticos, prevendo poupar anualmente R$ 355 milhões (somados o abono natalino e as férias). Os desligamentos ocorridos apenas entre março e maio já significam uma redução mensal de aproximadamente R$ 15 milhões.

Setores eliminados

O flagrante de cabide de empregos causou o fechamento integral de coordenações inteiras, com destaque para a Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade (Seas) e a Casa Civil. Ao prestarem depoimento, vários comissionados tentaram justificar que faziam “atividades externas”, contudo entraram em contradição.

Marcelo Cabral D’Almeida, que atuava na extinta Subsecretaria de Manutenção de Áreas Verdes Urbanas ganhando R$ 10.903,66, declarou que efetuava fiscalizações externas na Zona Oeste. Porém, interpelado pelos fiscais, acabou confessando que não se recordava do nome de seu próprio chefe.

Marcelo é herdeiro do ex-parlamentar Marcelino Almeida e obteve a vaga por meio do ex-secretário Bernardo Rossi (União) — que nega irregularidades —, mesmo sem possuir qualificação na área ecológica.

Laços familiares e apadrinhamento político

Clã Von Seehausen: O ex-gestor municipal Marcus Wilson Von Seehausen (antigo assessor de parlamentar detido na Operação Furna da Onça) e seu herdeiro, João Antonius Von Seehausen, figuravam nos registros e foram desligados. Seus vencimentos limpos eram de R$ 12,2 mil e R$ 10,3 mil, respectivamente.

Vagas de parentes na Conscientização Ambiental: A Subsecretaria de Conscientização Ambiental, que perdeu 37 postos de trabalho, ficava sob a tutela de Thamires Rangel, filha do deputado estadual Thiago Rangel detido por suspeitas de desvios na área de Educação.

A “produtora de conteúdo de São Marcos”: Bruna Castello Branco Costa Motta, criadora de conteúdo digital com 16 mil admiradores na internet, estava nomeada na Seas na função de adjunto I. Ela acabou exonerada na condição de “alta criticidade”, embolsando mais de R$ 9,6 mil relativos a férias convertidas em dinheiro sem possuir nenhuma atividade registrada nos computadores governamentais.

O comando fluminense endureceu as diretrizes para evitar o reingresso de trabalhadores fajutos à máquina estatal. Os chefes da Casa Civil, Flávio Willeman, e de Governo, Roberto Leão, encaminharam comunicados específicos para cada repartição.

Restrição de retorno: Todos os apadrinhados desligados sob suspeita de fraudes foram incluídos em um cadastro de veto e estão impedidos, via decreto, de voltar à secretaria de onde saíram.

Os responsáveis pelas pastas que restam possuem prazos curtos para entregar suas planilhas finais contendo os funcionários em situação irregular e efetuar as demissões imediatas.